O Centro Cultural Inclusartiz abriu ao público sua nova exposição: “Miguel Afa — Em construção”. Sob a curadoria de Victor Gorgulho, curador-chefe da instituição, a mostra individual ocupa o espaço expositivo do primeiro andar até fevereiro de 2024 com um recorte de cerca de 20 pinturas da produção recente do artista Miguel Afa (Rio de Janeiro, 1987) — incluindo trabalhos inéditos — voltados para a sua pesquisa em relação ao uso da cor.

Norteada pelo tempo de maturação que um artista leva para entender e identificar em sua obra aquilo que é reincidente e realmente importante em seu repertório poético, visual e temático, a curadoria desta exposição chama atenção para uma produção artística em processo, em transformação. Nome proeminente do cenário carioca da arte contemporânea, Miguel Afa nasceu no Complexo do Alemão, Zona Norte da cidade, e iniciou sua carreira como grafiteiro nos anos 2000. Desde 2019, vem se dedicando à pintura e explorando suas inúmeras nuances em paletas que transitam entre tons de marrom, bege, terra, preto e suas muitas variações. Para o curador:
“Nesta exposição, temos a chance de presenciar a obra de Afa em construção diante de nossos olhos, nos convidando a contemplar o momento atual em que esta se encontra, já distante dos experimentos iniciais em grafite que ocuparam o início de sua carreira, e ainda afastada do que está por vir. E que nem o artista e tampouco nós podemos atestar o que será.”
O trabalho de Miguel Afa reside no reino figurativo, reconstruindo meticulosamente memórias, tecendo fios enigmáticos do inconsciente com elementos tangíveis da realidade. Este processo o permite criar narrativas profundamente alinhadas com a sua visão artística. Com o tempo, esta jornada em evolução transformou-se numa exploração matizada da cor. Como colorista, descobriu sua autêntica identidade artística.

A construção, presente no título da mostra, realizada em parceria com a galeria NONADA (representante do artista), evidencia-se também na aparição recorrente de casas e construções nas pinturas presentes na exposição — ora em estágio intermediário de seu erguimento, ora em estágio similar às ruínas daquilo que já foi uma casa —, a exemplo da tela de larga escala “O tremor e o terroso” (2023). Trabalhos inéditos da série “Moonlight” (2023), baseadas em frames do filme homônimo de Barry Jenkins lançado em 2016, também estão presentes nesta individual. Para o artista Miguel Afa:
“É difícil pensar em resumir em poucas palavras a reunião destas obras. Ao mesmo tempo que há certos hiatos temporais entre elas, elas também se encontram em tempos diferentes, em um cruzamento que eu vejo que é muito forte. Eu também consigo perceber a maturidade que vai crescendo de uma pintura para outra. É como se as pinturas ficassem provocando a si mesmas, umas às outras. Acho que aqui, vendo este recorte apresentado pela curadoria, percebo que estou propondo uma visualidade muito nova dentro do meu trabalho.”
O INSTITUTO INCLUSARTIZ
Fundado em 1997 por Frances Reynolds, o Instituto Inclusartiz é uma organização cultural não governamental sem fins lucrativos sediada no Rio de Janeiro, que tem como ambição promover a arte contemporânea global por meio da formação de artistas, curadores e pesquisadores em diversas etapas de suas carreiras. Desde 2021, o instituto conta com um centro cultural na Praça da Harmonia, na Gamboa, região portuária da cidade, que abriga um conjunto de iniciativas nas áreas da arte, educação e sustentabilidade, com uma programação orientada a partir de núcleos diversos: residências artísticas; educativo; comunitário; expositivo; pesquisa e publicações; sustentabilidade e engajamento social. As atividades do Programa Educativo do Instituto Inclusartiz são realizadas com patrocínio do VLT Carioca e do Instituto CCR. Mais informações em: www.inclusartiz.org
![Miguel Afa, Aspectos do tempo [noite] (2023)](https://i0.wp.com/revistaphilos.com/wp-content/uploads/2025/11/a9e63-aspectos-do-tempo-noite_2023_miguel-afa.jpeg?resize=740%2C494&ssl=1)
Abaixo você lê o texto curatorial de Victor Gorgulho, gentilmente cedido para a próxima edição de verão da Philos:
MIGUEL AFA —em construção, por Victor Gorgulho
Vivemos em tempos um tanto velozes, sabemos. Tamanha é a aceleração que conduz o regime temporal dos dias de hoje que este chega até mesmo aos delicados perímetros do campo da produção da arte. Não seria hiperbólico afirmar, aqui, que tanto histórica quanto notoriamente, a arte atravessou os séculos sem perder sua alcunha de desafiadora do status quo, (quase) sempre a trilhar uma rota de colisão certa com o espírito de uma própria época em si, buscando, deste acidente, reter as fagulhas que restarão pelos ares e, possivelmente, irão iluminar o caminho para que a trajetória do artista siga sendo feita, realizada. Dia após dia, em eterna construção.
Mas, se diante do atual estágio da contemporaneidade, mesmo a arte encontra-se em uma espécie de campo minado rodeado por agentes, atores, seres invisíveis, por forças sobrenaturais e também por outras movimentações nem tão invisíveis assim (!), é ela própria, na forma do trabalho diário despendido por seus criadores – os artistas – quem coloca-se a questionar seu verdadeiro papel e as possibilidades de transformação, defronte uma era em que parece imperar apenas o contrassenso como arma unívoca, sem janelas ou frestas para o debate público, onde nossa atenção é facilmente “engolida”, fagocitada e, em questão de segundos, digerida para efeitos outros, nos levando a caminhos que nos distanciam, verdadeiramente, de nossos intuitos primeiros. São tempos confusos, para dizer o mínimo, podemos concluir.
Toda esta divagação acima nos conduz ao que realmente nos traz reunidos à presente ocasião, a exposição individual do artista Miguel Afa (Rio de Janeiro, 1987), a ocupar todo o primeiro andar expositivo do Centro Cultural Inclusartiz. Espalhadas por todas as paredes do espaço, encontram-se pinturas que nos apresentam um amplo recorte de sua produção recente, por meio de uma seleção de cerca de vinte obras; ora inéditas, ora recém-exibidas em distintos contextos expositivos, privilegiando um olhar que se volta para a pesquisa em curso do artista em relação ao uso da cor em engenhosas paletas que suavemente transitam entre tons de marrom, bege, terra, preto e suas muitas variações.

Se estamos a falar sobre o tempo de maturação que um jovem artista leva para entender e identificar em sua produção aquilo que é reincidente e realmente importante em seu repertório poético, visual e temático, aqui temos a chance de presenciar exatamente este estágio da carreira de um dos nomes proeminentes do cenário carioca – e, por que não, nacional? – da arte contemporânea. A obra de Afa está em construção, diante de nossos olhos; aqui, somos convidados a contemplar o momento atual em que esta se encontra, já distante dos experimentos iniciais em grafite que ocuparam o início de sua carreira, ainda afastados também, quiçá, do que está por vir – e que nem o artista e tampouco nós podemos atestar o que será.
A construção presente no título da mostra evidencia-se também, claramente, na aparição recorrente de casas e construções, ora em estágio intermediário de seu erguimento, ora em estágio similar às ruínas daquilo que já foi uma casa, um ambiente doméstico e já não mais o é. Miguel Afa nos encontra no meio do caminho, na metade do tempo de suas pinturas, de sua produção em curso, no gesto em movimento de seus personagens retratados nas telas. Junto ao artista, nos propomos a frear a temporalidade sobre-humana que o mundo de hoje nos impõe e, juntos, investigamos uma poética em construção. Em vias de. No intuito de chegar lá. Onde, como, de que modo, aqui não nos interessa. Apreciemos a construção em curso de Afa, que nos conduz pelos meandros deste caminho, cheio de quebradas, ruelas, ruínas, destroços, paredes em subida, figuras humanas em estágio de suspensão. Contemplemos o agora, em todos os seus (inúmeros) tons e nuances de cores a nós presenteadas pelo próprio artista.